Será que desta vez António José Seguro acerta?
Será que depois das diversas
reuniões entre António José Seguro e António Costa, vamos passar a ter uma
oposição decente ao actual (des) Governo?
Pela amostra desta carta, dá
a ideia que, pelo menos, existe uma mudança de atitude da parte de António José
Seguro.
Portugal precisa
urgentemente, de uma alternativa fiável à actual governação. Os portugueses
merecem que melhor Governo que o actual, que há-de ficar na história pela
negativa.
É necessário que o Partido
Socialista, force a barra à troika e
se necessário for, romper com o memorando, assinado no início de 2011. Os
resultados deste memorando já se viram e como tal é necessário algo de
diferente a esta política de austeridade sobre austeridade. Esta receita está
esgotada, apesar do Governo continuar a insistir no mesmo, mas como todos
sabemos que o seu propósito é a destruição da classe média e o empobrecimento
generalizado dos portugueses.
Este Governo se começar a
ter uma oposição forte, que deveria ser de toda a esquerda unida e não de cada
Partido por si. Julgo estar a faltar bom senso nos partidos de esquerda, para
que haja uma união e não ataques constantes de uns aos outros. Desta forma,
apenas conseguem fortalecer a coligação que não tem medo de cair a qualquer
momento.
Conforme o tempo vai
passando, também se fica a saber que o Governo não consegue atingir nenhum dos
objectivos a que se propunha, até pelo contrário, fica longe de todos eles.
Devido a isso, se toda a esquerda estivesse unida e começassem a procurar uma convergência
de ideias para o futuro do país, em que haja unidade, mas não unicidade, em que
haja solidariedade, em que deixe de haver vantagens dos políticos em relação
aos restantes portugueses, assim, talvez seja possível os portugueses fazerem
as pazes com a classe política. Se continuar tudo igual, corre-se o risco de
aparecer algum ditador a substituir os actuais aprendizes de tal ideologia e
que consiga levar o barco a pior porto.
Vamos ver se esta atitude de
António José Seguro de estar a pôr as garras de fora, se é para valer, ou se
apenas representa fumaça que desaparece no ar.
.A carta de Seguro à troika
na íntegra
Exmo
Sr. Presidente Não é a primeira vez que lhe dirijo formalmente uma carta sobre
as consequências para os portugueses do Programa de Ajustamento Económico e
Financeiro de Portugal.
Anteriormente
fi-lo para dar conta da posição do Partido Socialista nas reuniões com os
representantes da troika, reafirmando o nosso compromisso com os objectivos de
consolidação orçamental mas alertando para a necessidade do Programa ser
credível e ter em linha de conta com os impactos económicos e sociais da austeridade.
Recordo que na carta remetida em Setembro de 2012 chamava a atenção para o
fracasso da tese da austeridade expansionista e referia uma situação de
pré-ruptura social que aconselhava fortemente a uma reavaliação do modo de
ajustamento.
Infelizmente
a situação económica e social agravou-se fortemente.
Segundo
os dados mais recentes, a taxa de desemprego atingiu os 16,9%, isto é a maior
taxa de todos os tempos em Portugal. Hoje temos 923 mil desempregados
registados e 40% dos jovens não têm emprego. A situação torna-se ainda mais
dramática quando é sabido que mais de metade destes portugueses não tem acesso
a qualquer mecanismo de protecção social, encontrando-se na miséria ou a viver
do apoio da família que, por sua vez, também é fustigada com cortes de salários
e pensões a aumento de impostos. Ainda no final da passada semana foi publicado
um relatório internacional a denunciar que mais de um quarto das crianças
portuguesas estava em situação de pobreza ou exclusão.
Por
outro lado, os dados do Eurostat da passada quinta-feira comprovam que no
quarto trimestre de 2012 a economia portuguesa retraiu-se 3,8% em termos
homólogos, com a maior queda trimestral registada em toda a União Europeia e
uma recessão mais profunda do que a esperada porque qualquer entidade nacional
ou internacional. A recessão não só persiste como está a agravar-se.
A
balança externa, que nos últimos meses era o último argumento do Governo e da
troika para tentar indiciar algum aspecto do ajustamento com impacto positivo,
dá mostras de degradação. Todos sabíamos que as importações estão a retrair-se
pela forte redução da procura interna, nomeadamente do investimento. O que é
reconhecido pelas recenes estatísticas do INE é que as exportações estão em
desaceleração há um ano e em Dezembro de 2012 caíram 3,2% em termos homólogos.
Mais
desemprego, menos economia, mais falências e insolvências, mais pobreza, mais
emigração de portugueses qualificados, em particular os jovens. Este é o
retrato trágico da política da austeridade do custe o que custar.
Uma
política – a da austeridade expansionista – que não atingiu os objectivos
propostos. O défice orçamental em 2012 ficou acima do inicialmente previsto e
com recurso a receitas extraordinárias. A dívida pública não para de aumentar.
E, mesmo com os fundos oriundos das privatizações, a dívida pública aumentou sete
pontos percentuais em 2012.
O
Memorando previa para 2012 um défice de 4,5% do PIB, uma taxa de desemprego de
13,4%, uma recessão de 1,8%, um stock de dívida de 189 mil milões de euros. O
programa não permitiu atingir nenhum destes objectivos.
Há
muitos sinais de que a austeridade excessiva tem sido contraproducente, um
fator de recessão e de desagregação social. Só para dar três exemplos: o
aumento de desemprego levou a uma quebra de 700 milhões de euros nas
contribuições para a Segurança Social e de um aumento de 550 milhões de euros
na despesa dos subsídios de desemprego; aumentaram-se as taxas do IVA para
cobrar mais 12% e afinal a receita caiu 2%; a falência de muitas empresas, a
insolvência de muitas famílias e as imparidades obriga a um esforço acrescido
na capitalização da banca.
Em
síntese, os portugueses estão a passar por enormes dificuldades, a fazer
sacrifícios para além dos limites admissíveis, sem que se vejam os resultados
(défice orçamental e dívida pública) que o Governo e a troika prometeram; com
consequências dramáticas no desemprego e na destruição do aparelho produtivo.
Os
portugueses não aguentam mais!
Estamos
à beira de uma tragédia social. Chegou o momento de dizer basta!
Chegou
o momento de procedermos, Portugal e a Comissão Europeia, Banco Central Europeu
e Fundo Monetário Internacional, a uma avaliação política do processo de
ajustamento do meu país.
Não
está em causa, como nunca esteve o cumprimento das nossas obrigações externas.
Honramos os nossos compromissos e queremos cumpri-los.
Não
está em causa a necessidade do rigor e da disciplina orçamental. O Tratado
Fiscal Europeu foi aprovado pelo PS, bem como a inclusão da regra de ouro na Lei
de Enquadramento Orçamental.
O
que está em causa é a política escolhida, a da austeridade expansionista, que
não atinge os objectivos a que se propôs e está a criar problemas sociais e
económicos de uma enorme gravidade.
A
avaliação política que propomos deve desenhar uma estratégia credível de
consolidação das contas públicas, dando prioridade ao crescimento económico e à
criação de emprego. Já não é só uma opção ideológica, como o PS tem defendido,
trata-se de realismo. É uma obrigação moral, olharem para a situação de
Portugal e terem, Governo e a troika, a humildade de reconhecerem que a vossa
receita falhou.
Portugal
necessita, por razões que temos vindo a apontar e que são do conhecimento da
troika desde Novembro de 2011, de mais tempo para a consolidação das contas
públicas, para o pagamento da divida, de juros mais baixos e de um adiamento do
pagamento de juros. Estas quatro condições são essenciais para a criação de um
ambiente amigo do crescimento económico e são a melhor garantia de que os
portugueses cumpriram os seus compromissos de acordo com as suas
possibilidades.
Portugal
quer sair da actual situação. Portugal quer eliminar os seus desequilíbrios
estruturais e iniciar um ciclo virtuoso de crescimento, competitividade e
finanças públicas sãs. Para que tal aconteça é necessário que se recupere o
forte apoio político e social ao programa de ajustamento, o que passa por se
perspectivar um programa credível e equitativo.
Há,
em Portugal, um vasto consenso social de que é necessário uma estratégia
credível de consolidação que tenha em conta as consequências sociais e a
evolução da economia nacional.
A
próxima avaliação do PAEF, a sétima, que vai ocorrer este mês de Fevereiro não
pode ser um exercício técnico de verificação se o que está no memorando está a
ser aplicado. Muito menos propor ou aceitar novas medidas de austeridade como
aconteceu em Setembro último.
A
próxima avaliação é crucial para a vida dos portugueses. Exige-se que seja uma
avaliação política tendo em conta a grave situação económica e social. A
Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional
devem enviar a Portugal responsáveis políticos com capacidade de decisão.
Dirijo-lhe
esta carta, sensibilizando-o para a situação gravíssima que os portugueses
estão a viver e para a necessidade de a próxima delegação da troika ser
constituída por responsáveis políticos da instituição que dirige.
Com
a expressão dos meus melhores cumprimentos
António
José Seguro
Secretario
Geral PS
Comentários
Enviar um comentário